Aldeia Velha
Textos sobre as aldeias do povo Pataxós
Na aldeia Tibá existem 35 familias cadastradas. A maioria vive em residências fixas, poucos saem apenas transitam entre a vila e a aldeia. As familias que predominam são as do Braz, Ferreira, Alves, Conceição, Santos, Cuz, Santana e Fragoso. Em sua maioria, esses indígenas, nasceram próximo aos rios do SuL, do Peixe, Caí, Imbassuaba, Pixane, Corumbau, e Ribeirão, todos na região de Cumuruxatiba ou Barra Velha.
Após a retomada do Pequi e conseqüente expulsão dos índios pelo fazendeiro, os Pataxó, direcionaram as retomadas para áreas localizadas dentro do Parque Nacional do Descobrimento. A primeira ocupação foi a da Aldeia Tibá em 2003, local que antes da implantacão do Parque chamava-se Brasília. O cacique que liderou a ocupação foi Zé Chico (Timborana), acompanhado de Zé Bete e mais 20 lndios Pataxó. Atualmente o cacique da Aldeia Tiba é o José Bete, que se mantém desde a retomada.
Utilizam uma farinheira construída com apoio da FUNAI para fazer farinha de puba (cuiuna de caboclo), farinha de guerra (fina para venda externa), tapioca e bolo de tapioca (enrolado em folha de patioba).
Contam com uma escolinha indígena construída com esforço da comunidade e com um professor mantido pela Prefeitura de Prado.
Os Pataxó do Tibá tem nos mais velhos a segurança dos ensinamentos sobre a utilização das plantas para cura, a transmissão da língua e rituais ainda lembrados, como é o caso da índia Zabelê, que repassa constantemente seus conhecimentos a todos de sua aldeia. "Ela sempre brigou para nós usarmos o tupsai e mostrarmos nossa cultura, e não ter vergonha de ser indios" (filha de Zabelê em entrevista 10/2005)
O cacique afirma que não caçam na área do Parque, a não ser que não tenham escolha, ou seja, que não tenham o que comer. Caso isso aconteça, encontram tatu, paca e alguns tipos de pássaros.
A água que abastece a aldeia é a do rio do Peixe, de onde também retiram seu pescado.
Tanto o Tibá quanto as outras áreas escolhidas para ocupação dentro do PND já estavam muito desmatadas. No caso dessa aldeia os indígenas escolheram locais que já estavam queimados e desmatados para colocar as roças de mandioca, melancia, banana, feijão, milho, mamão, e outras árvores frutíferas da região. Segundo o cacique, seu grupo já replantou mais de 500 mudas de árvores nativas que produzem sementes para o artesanato. Mesmo assim, sofrem com a pressão do IBAMA, que tentam impedi-los de plantar.
Recentemente araram uma area para plantar melancia e foram reprimidos pelo IBAMA, caso que culminou em uma perícia da Policia Federal.
É importante frisar que a Aldeia Tauá é uma posse de aproximadamente 10 tarefas cercada por grandes fazendas. Na documentação apresentada pelo cacique Walmir existe uma guia de recolhimento de impostos do INCRA, que está em nome do indio Cesário, residente na Aldeia. Por falta de opção, pois a terra não é suficiente para um grupo de 31 familias que vivem dentro da aldeia, a maioria busca empregos junto aos fazendeiros da região, e temem as represálias dos mesmos. Para se ter idéia da pressão provocada pelos proprietários das redondezas, no dia da reunião junto ao Pataxó da Aldeia Tauá, ouvimos tiros de espingarda na direção do centro da Aldeia, e mais alguns no sentido da porteira.
Na aldeia Pequi vivem 17 familias. Todas as famílias residem na aldeia.
As "retomadas" tiveram inicio em 2003, sendo que a primeira foi em uma área de antiga ocupação indigena, o Pequi, próxima a localidade do "Come quem leva", ou seja, fora dos limites do Parque Nacional do Descobrimento, mas no que podemos chamar de grande área de perambulação Pataxo, entre o Parque Nacional de Monte Pascoal e o PND. Segundo informações dos índios, eles foram expulsos, após a ocupação, por empregados do proprietário Vitor Dequech, então proprietário da area reivindicada.
Segundo informações do cacique Zé Chico (Timborana), a área na boca da barra do rio Caí, hoje na mão de dois fazendeiros Vitor Dequech e Ivan Portela, era de posse de seus avós Abelina Pereira da Conceicão e Amâncio Machado, nascidos em Barra Velha e Prado respectivamente.
Subindo o rio Caí a oeste da fazenda do Sr. Vitor, ha uma fazenda denominada Santa Rita, atualmente de posse do Sr. Normando. Esse local concentra várias histórias de um grupo de Pataxó que ali viveram, durante décadas. Trata-se de uma família grande da Sra. Antônia do Amor Divino, mãe de D. Julice, irmã do indio "Fulor", residente no Bugigão/Barra Velha.
D. Julice conta que até 2002, ainda, morava no mesmo local, mas só que cercado por fazendas. Não tinha mais o espaço que antes para suas roças, muito menos a liberdade de pescar na beira do rio. Nesse mesmo ano, hospedou em sua casa um grupo de Pataxó, saídos de Mata Medonha (Sr. Baiara), e que procuravam um local para abrir suas roças. Segundo ela, os fazendeiros interpretaram essa ação, como uma "retomada" e iniciaram um clima de ameaças. Até que um dia, invadiram a casa e espancaram e torturaram seu marido, Sr. Francisco, que por conseqüência sofre de problemas sérios de saúde, inclusive ficando impossibilitado de trabalhar. Foi expulsa de sua casa, obrigada a assinar documentos de venda das terras, e a titulo de "pagamento", repassaram R$ 1.000,00. Após vários pedidos desesperados, D. Julice conta que o fazendeiro deu-lhe um "barraco" em uma vila chamada Guarani, próximo a Itamaraju, mas sem "um palmo de terra para plantar".
Com esse fato, podemos perceber que a violenta forma de agir desses proprietários, não foi utilizada, apenas, nas décadas de 60 e 70, é perpetuada ate o presente momento.
Aldeia Pequi, antiga Serra Verde, também foi formada a partir da retornada de uma área dentro do Parque Nacional do Descobrimento, realizada há um ano e 6 meses aproximadamente. Todas as casas são de taipa, algumas cobertas de madeira (paraju, louro, arapati), outras de sapê, e ainda de telha em folha.
A farinheira é de adobe, coberta de madeira e com a prensa de Ipê (montada pela comunidade e com apoio da FUNAI), onde fabricam farinha de puba e de guerra. Fazem também tapioca e bolo de tapioca. Parte da farinha que não é consumida é vendida nos mercadinhos da vila de Cumuruxatiba, bem como o excedente de frutas.
As roças são pequenas, de no máximo 1 tarefa, todas ao redor das casas. Plantam abacaxi, mamão, mandioca, banana, cana de açúcar e coco. Estão se preparando para trabalhar com apicultura. Criam galinha para consumo.
Utilizam a água do rio do Peixe e pescam nos rios Imbassuaba e Caí. Também pescam em urna represa conhecida por Só não Vou, a 2 horas de caminhada da aldeia. — tipo de peixes — Beré, Traíra, Jundiá, Robalo.
A caça que ainda existe no parque — Anta, tatu, sapateira (anta grande), queixada, porco do mato, meia queixada, caititu, cotia, quati, macaco, saruê, mutum, macuco, veado, pássaros da região, mas são impedidos de caçar por estarem em terras de um Parque Nacional.
A Aldeia Pequi em sua maioria é formada pela família do cacique Baiara, nascido em Barra Velha que viveu na TI Mata Medonha por 17 anos. Saiu de Mata Medonha por divergências internas, e levou consigo vários familiares. Buscou apoio nas terras de D. Julice e tentou se instalar em uma terra próxima ao rio Caí, um local conhecido por antigo Pequi, que hoje é de propriedade do Sr. Normando. Enfrentaram a revolta dos fazendeiros e resolveram passar a ocupar uma área nos limites do Parque.
Recentemente enfrentaram outro problema sério, o fogo. Uma grande área próxima à aldeia queimou durante três dias. Uniram-se aos agentes do Previ-Fogo (IBAMA), para o combate ao incêndio cuja causa está sendo apuradas.
Na aldeia Kaí vivem 73 familias cadastradas - utilizam a área para agricultura de subsistência e recebem assistência médica (FUNASA), mas apenas 17 familias indígenas possuem residência fixa na aldeia. Por se tratar de uma retornada dentro do Parque do Descobrimento, muitas temem construir sua casa e ser obrigado a se retirar por força de uma liminar. O restante das famílias revezam o tempo entre a aldeia e a Vila de Cumuruxatiba onde a maioria sempre residiu.
Após a retomada da Aldeia Tibá, alguns conflitos internos afastaram alguns indigenas da aldeia, entre eles Timborana, que voltou para o povoado. Seis meses depois uniu-se a 30 familias indigenas que se retiraram da Aldeia Tibá e retomou uma area próxima ao curso do rio Imbassuaba. Contam que a área pertenceu ao índio Antonio Cabeludo, que foi expulso pela BRALANDA (mostraram alguns documentos/registro de posse do 1NCRA no /1/), e do indio Manoel de Afrodisio Valadão, que se intitula descente dos assim chamados índios Mavão.
(Os índios mais velhos contam que os Mavão eram índios bem pequenos e morenos que apareciam de dentro da fenda das falésias próximas ao local onde mora D. Santinha. Eles os chamam também de índios formigas. Segundo Paraíso, alguns viajantes encontraram com esses índios, os quais chamaram de Makão-Kaji, ou seja, "índio pequeno", nas imediações de um local conhecido por Cachoeira de Santa Clara e posteriormente aldeados em Porto Alegre.)
Na aldeia existe uma escola de taipa construída pebos indios e mantida corn recursos da Prefeitura do Prado.
A água utilizada para o abastecimento da aldeia é a do rio Imbassuaba, e é nele também que pescam, jundiá, robalo, traíra e outros peixes. Entretanto, nem sempre a água do rio está boa para o consumo, pois no limite do parque e da aldeia, existe uma grande plantação de mamão, onde são jogados vários tipos de defensivos e fertilizantes que escorrem para o leito do rio.
A roça da aldeia Kaí é de subsistência, onde pode se encontrar feijão, milho, mandioca, e algumas frutas como melancia, abacaxi, mangaba (nativa), banana, caju (nativo), e outras.
Como nas outras aldeias as casas são construídas de taipa e cobertas de sapé, sendo que algumas ainda estão cobertas de plástico preto desde a ocupação da terra.
Também, enfrentam pressão do IBAMA, mas os maiores problemas são com os fazendeiros do entorno que ultrapassam a cerca do parque em busca de caça, fato que não é aceito pelos Pataxó.
A maior liderança, ainda, é o Timborana, que conta com o apoio de sua mulher Jovita, grande líder espiritual e conhecedora da cura através das ervas medicinais e dos rituais Pataxó. Entretanto, por problemas de saúde passou o encargo de cacique para o Osmar, professor da Aldeia que acompanha o grupo desde o início da ocupação.
Na aldeia Alegria Nova vivem 16 familias. Todas residem na aldeia em um total de 12 casas. Em sua maioria são das familias Conceição, Brito e Machado. Os Brito aqui citado são da mesma familia do Sr. Maninho, fundador da TI Mata Medonha.
A maioria é nascida nas imediações dos rios Gibura, Cai, do Sul, Corumbau e Palmares, todos inseridos na area reivindicada pelos Pataxó.
A aldeia Alegria Nova, também é uma área "retomada" dentro dos limites do Parque Nacional do Descobrimento, próxima ao rio do Sul e córrego Três Capangas — várias vezes citado pelos índios mais velhos, de onde abastecem de água para beber.
A principal família é a do Sr. Gentil Brito da Conceição (63 anos), irmão do cacique da TI Mata Medonha, e Dona Romilda (75 anos). Ele nasceu em Barra Velha e viveu 13 anos na aldeia Boca da Mata, saiu de lá por pressão do IBDF. Filho de Donato de Brito Conceição e Maria Francisca da Conceição mudou-se para região do rio Caí em 1955, onde "abriu posse", próxima a área que atualmente é do PND.
Quando casou com D. Romilda foi morar próximo ao rio do Sul, em terras da família dela, aproximadamente 80ha, segundo documentação do INCRA. O Sr. Gentil, disse que a terra deles era cercada de grandes fazendas, até que a BRALANDA comprou uma área do Sr. Mascarenhas e passou a pressioná-los a vender. Como não aceitaram as propostas, foram expulsos da terra em 1974, sob a alegação de que estavam em terras que a empresa havia adquirido.
Durante a entrevista que realizei na aldeia Alegria Nova, a família de Dona Romilda se emocionou muito, pois afirmam que os atos de violência foram muitos. Segundo informação dos índios, durante a expulsão que, inclusive teve total apoio de agentes policia de Prado, as familias indigenas foram obrigadas a fiigir em uma noite chuvosa, ocasionando a morte de uma das filhas de D. Rornilda que estava corn sarampo.
Sr. Gentil contou que a terra era toda cultivada. "Lá tinha roça de tudo quanto é tipo, tinha 30 tarefas de mandioca, 5 ha de café, banana, cacau, laranja, etc". Informou tarnbém que a BRALANDA mandou queimar 3 casas e uma farinheira.
Exitem atualmente 17 (dezessete) aldeias indígenas do povo Pataxó, localizadas nos municípios de Prado, Porto Seguro, Santa Cruz de Cabrália e Itamarajú, no Extremo Sul da Bahia.
São elas:
Texto extraído de Breve história da presença indígena no extremo sul
Verdadeiros precursores da técnica das guerrilhas, os então chamados "Aymoré" eram capazes de surgir repentinamente nas povoações pilhando e devastando suas moradias e plantações, desaparecendo com a mesma rapidez de volta para as matas interiores, onde sua mobilidade e dispersão, além de prevenir uma propagação rápida das epidemias mortíferas, desencorajava plenamente as tentativas de reação dos colonos.
Posteriormente a região passa a ser percorrida com regularidade por prepostos governamentais e, principalmente, por pesquisadores estrangeiros, cujos relatos, notadamente o do príncipe alemão de Wied-Neuwied (1817), nos permitem hoje um bom conhecimento etnológico daqueles povos indígenas, em sua maior parte ainda autônomos, e, fornecem uma boa idéia da sua distribuição territorial.
Nas vizinhanças do litoral, os Botocudos — localmente auto-designados Gren — limitavam-se ao sul e mantinham disputas com os Pataxó à altura do rio de Santa Cruz — João de Tiba — e tinham ao longo do Jequitinhonha suas principais concentrações.
Limitavam-se ao norte, na altura do Rio Pardo, com outros bandos pataxós e, mais para o interior, com kamakãs. Estes últimos, contudo, mantinham, já desde o século anterior, uma povoação na foz do Jequitinhonha, junto à vila de Belmonte, onde eram conhecidos por Meniã. Os Botocudos, mais uma vez, em diversos bandos e sob diversas denominações, voltavam a dominar as proximidades da costa ao sul do rio de São Mateus — Cricaré —, mantendo concentração ao longo do rio Doce e estabelecendo contato pelo interior com os bandos ao norte, na área do Jequitinhonha. Esta porção mais interior, correspondente ao atual nordeste do estado de Minas Gerais, era compartida por Botocudos e etnias outras — que não mencionarei aqui — que são, em sua maioria, identificáveis lingüisticamente às famílias Maxakalí ou Kamakã.
A faixa correspondente, "grosso modo", ao atual Extremo Sul baiano era, pois, dominada pelos Pataxó, e, também, por grupos Maxakalí. Estes Pataxó e Maxakalí parecem ter compartilhado o mesmo território, entre o João de Tiba e o São Mateus, e é também referido que constituíam alianças temporárias para debelar investidas dos Botocudos.
Os Pataxó mantinham maiores concentrações na área mais próxima à costa, enquanto que os Maxakalí teriam seu pólo de dispersão nas cercanias da Serra dos Aimorés — atual divisa entre Bahia e Minas Gerais —, disposição que, de resto, conservam ambos no presente.
A conquista desses povos indígenas do sul da Bahia é uma longa história de mais de cem anos que só atingiria seu ápice nas décadas iniciais do século XX, quando as roupas infectadas por lepra e varíola que plantadores de cacau da região entre o Contas e o Pardo espalharam pela mata deram cabo dos últimos bandos ainda isolados e vivendo de modo autônomo.
No que diz respeito ao Extremo Sul, porém, tudo indica que, já em meados do século XIX, a maioria da população indígena sobrevivente vivia junto às vilas coloniais costeiras — de Santa Cruz Cabrália a Porto Alegre, atual Mucuri —, para onde fora trazida na tentativa de submetê-la ao trabalho a serviço dos regionais.
Em 1861, contudo, preocupado com os constantes conflitos entre estes e os índios e, provavelmente, também com a possibilidade legal dos últimos reivindicarem as terras que ocupavam, o Presidente da Província da Bahia determinou a concentração compulsória de toda a população indígena da região numa única aldeia, a ser estabelecida no ponto médio daquela costa, junto à embocadura do rio Corumbau. Esta é, seguramente, a origem da atual aldeia de Barra Velha (Carvalho, 1977), anteriormente também conhecida pela denominação de Bom Jardim.
Texto extraído de Breve história da presença indígena no extremo sul
Os povos indígenas do atual Extremo Sul baiano são personagens marcantes já do primeiro documento da história do Brasil, a notória carta de Vaz de Caminha (1500).
A aguçada descrição etnográfica aí contida não deixa dúvidas quanto a serem tupi estes índios, ou mais precisamente Tupiniquim, como se tornariam conhecidos em toda a documentação colonial subsequente para a região, especialmente aquela produzida por missionários jesuítas que entre eles se estabeleceram já nas décadas iniciais do período colonial.
Por outro lado, se estes Tupi, até então senhores de todo o litoral dos atuais municípios de Belmonte, Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália e de muitas outras porções da costa, se tornaram de pronto não só bem conhecidos como subjugados ao colonizador, ficaria também logo patente que esses não estendiam seus domínios muito para o interior, território de outras etnias que à época os portugueses identificavam apenas pela designação tupi genérica de Aymoré e sobre os quais o poder colonial levaria ainda mais que um par de séculos para estabelecer o seu domínio.
Sabe-se hoje que os Tupi avançaram, vindos do sul, pela costa leste e nordeste do Brasil, dela desalojando diversas outras etnias, em geral dadas como afiliadas ao tronco Macro-Jê, apenas no máximo alguns poucos séculos antes da intrusão européia e que, apesar de terem consolidado seu domínio sobre o litoral, incursões belicosas dos povos do interior eram ainda freqüentes no limiar do século XVI.
Enquanto os Tupi tendiam a se concentrar em aldeias estáveis, relativamente grandes, onde poderiam viver de mil a três mil indivíduos e, em alguns casos, até muito mais, os povos do interior organizavam-se em pequenos bandos de apenas algumas famílias, algo em torno de dezenas ou, no máximo, não muito mais que uma centena de indivíduos, o que lhes facultava uma grande mobilidade, raramente adotando um mesmo local de moradia permanente por mais que uma estação agrícola e, ainda durante tal período, com grande movimentação ao derredor.
Com tais características, a caça e a coleta tinham, proporcionalmente, mais destaque na economia destes grupos que a agricultura; e que o oposto se dava no caso dos Tupi costeiros, mais sedentários e capazes de exercer um domínio mais estável sobre um território específico, onde plantavam suas grandes roças de mandioca e milho, intercaladas por extensões de mata — áreas de caça e coleta —, além do domínio de importantíssimos ecossistemas costeiros, especialmente estuários, restingas e manguezais, ricos em proteína animal, além do acesso ao próprio oceano.
Os Tupi constituíam um conjunto cultural e lingüístico bastante homogêneo ao longo de toda a costa, ainda que fracionado em muitas unidades políticas locais de relativa flexibilidade, os grupos do interior só podem ser tomados como uma unidade por características bem genéricas, e, ainda assim, corre-se o risco de distorções.
Lingüistas sustentam a hipótese de que a região compreendida hoje pelo sul da Bahia, Leste e Nordeste de Minas Gerais e o Espírito Santo — dominada pelas grandes bacias dos rios Doce, Mucuri, Jequitinhonha, Pardo e de Contas — tenha sido a região original de concentração dos grupos do tronco Macro-Jê. Isto explicaria a sua grande diversidade lingüística, que compreende as famílias Botocudos, Puri, Kamakã, Maxakalí, que possivelmente inclui as línguas designadas Pataxó — não suficientemente conhecidas para uma classificação precisa — e talvez outras, além de línguas isoladas, cujos escassos registros hoje disponíveis também não permitem maiores discernimentos.
As grandes aldeias dos Tupiniquim se tornaram presas fáceis da conquista lusitana, iniciada por métodos "pacíficos" e completada militarmente quando já não era possível a resistência. Neste processo, as grandes concentrações indígenas — intensificadas pelo trabalho catequético dos jesuítas — foram amplamente dizimadas pelas epidemias européias, rapidamente alastradas, de modo tal que, ao se encerrar o século XVI, praticamente já não havia tupiniquins livres na atual costa baiana.
Das aldeias missionárias que, nas cercanias de Porto Seguro, chegaram a mais de uma dezena, apenas duas o sobreviveram: as de São João Batista e Patatiba, tornando-se as vilas de Trancoso e Vila Verde.
Texto extraído de Breve história da presença indígena no extremo sul